O Hospital Sírio-Libanês confirmou publicamente, em comunicado veiculado nesta sexta-feira (16), a ocorrência de uma intrusão digital em sua infraestrutura tecnológica que pode ter exposto informações cadastrais e dados considerados sensíveis. A vulnerabilidade foi detectada em uma plataforma restrita de relatórios gerenciais, ambiente que concentra registros pertencentes a indivíduos atendidos ou integrados a programas de assistência e iniciativas sociais desenvolvidas em cooperação institucional. Diante do episódio, a entidade de saúde informou expressamente que a base cadastral geral que contempla o corpo de pacientes regulares atendidos nas unidades hospitalares permaneceu integralmente preservada, sem indícios de contaminação ou acesso indevido.
De acordo com o posicionamento oficial emitido pela instituição médica, o evento foi classificado tecnicamente a partir da constatação de que “um possível acesso não autorizado” ocorreu nos servidores dedicados ao armazenamento e à emissão de relatórios dessas atividades comunitárias. Tão logo a anormalidade foi mapeada internamente, as equipes técnicas deram início aos protocolos protocolares de resposta a incidentes cibernéticos. O caso foi formalmente submetido ao crivo da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), órgão federal encarregado de zelar pelo cumprimento das normativas de privacidade e segurança da informação, e à Polícia Federal, que instaurou procedimentos para conduzir a investigação criminal sobre o ataque aos sistemas.
Origem da invasão e atuação de grupo cibercriminoso
O episódio de segurança da informação teve seu ponto de partida registrado no dia 21 de setembro, data em que os invasores conseguiram contornar as defesas digitais da aplicação interna. A responsabilidade pela investida contra os sistemas do complexo hospitalar foi publicamente assumida por uma célula cibercriminosa recém-surgida no cenário das ameaças digitais, autoidentificada como Seven Deadly Sins (7DS). O grupo em questão ganhou notoriedade recente nos círculos de inteligência e segurança corporativa por concentrar suas operações no comprometimento de redes privadas pertencentes a grandes corporações e entidades de destaque, visando à obtenção clandestina de ativos digitais restritos.
Para atestar a suposta efetividade da exfiltração, os operadores do grupo Seven Deadly Sins (7DS) divulgaram, por meio de uma página mantida na internet para vazamentos, pelo menos dois documentos de texto contendo amostras das estruturas comprometidas. Esses relatórios técnicos sumários listam uma série de tabelas que teriam sido retiradas da infraestrutura de servidores afetada durante a incursão digital. As tabelas expostas detalham os nomes das coleções de dados, esquemas relacionais e o volume estimado de registros supostamente copiados da máquina violada.
Estrutura técnica e alcance da extração de registros
A documentação clandestina veiculada pelos invasores aponta que o foco central da invasão teria recaído sobre um servidor utilizado diretamente pelas operações da plataforma Mangará Digital. O sistema consiste em uma solução de código aberto voltada para atendimentos de telessaúde, idealizada e elaborada pelo próprio Hospital Sírio-Libanês com a finalidade de viabilizar a conexão entre equipes médicas, profissionais multidisciplinares e pacientes, com ênfase primordial em parcerias e atendimentos direcionados à rede do Sistema Único de Saúde (SUS).
Conforme as métricas compartilhadas nas amostras digitais atribuídas ao grupo Seven Deadly Sins (7DS), os agentes maliciosos teriam conseguido extrair um total aproximado de 1.600 arquivos estruturados no formato de tabela (.CSV). Esse acervo digital reuniria mais de 10 milhões de linhas de dados consolidados, perfazendo um volume bruto de armazenamento calculado em 2,96 GB. Apesar da divulgação desses parâmetros agregados, os invasores não disponibilizaram uma discriminação individual detalhando o tamanho específico e o conteúdo exato de cada um dos arquivos contidos no pacote exfiltrado.
Programas sociais e bases potencialmente atingidas
O cruzamento analítico entre as informações de domínio público a respeito dos projetos institucionais mantidos pelo Hospital Sírio-Libanês e o inventário sumário de tabelas divulgado pelos invasores revelou indícios de que iniciativas comunitárias de grande relevância podem ter tido registros capturados. É imperativo destacar, contudo, que a administração do Hospital Sírio-Libanês não referendou nem atestou a veracidade e a precisão do conjunto de arquivos e tabelas detalhados nas alegações públicas feitas pelos invasores.
Registros da plataforma Mangará Digital
Dentre as tabelas identificadas nas amostras vazadas pelo grupo cibercriminoso, uma fração substancial está diretamente atrelada ao ecossistema tecnológico do Mangará Digital. O inventário divulgado indica o comprometimento de diferentes categorias de registros cadastrais e operacionais da ferramenta de telemedicina. O compilado de dados cadastrais gerais de pacientes, registrado sob as nomenclaturas técnicas de pacientes, pacientes_detalhes e pacientes_anexos, totaliza 121.422 linhas de informação no relatório apresentado pelos invasores.
Adicionalmente, os arquivos indicam a existência de 27.088 linhas alocadas na tabela fhir_patient, que reúne cadastros estruturados de pacientes sob padrões internacionais de interoperabilidade médica. No âmbito da gestão de horários e agendamentos eletrônicos de teleconsultas, as tabelas designadas como ea_appointments e fhir_slot acumulam 133.006 linhas. A documentação exposta relaciona ainda dados vinculados ao gerenciamento de salas de teleconferência e perfis de usuários, representados pelas tabelas meetings e usuarios_meetings, que somam 193.028 linhas. Por fim, a tabela fhir_flag, destinada a marcações operacionais e alertas clínicos, registra 57.888 linhas. No somatório de todos esses registros voltados especificamente à estrutura do Mangará Digital, o total listado atinge 532.432 linhas.
Projeto APOST e a sensibilidade dos dados de saúde mental
Outro segmento de extrema relevância identificado nos arquivos expostos corresponde ao Projeto APOST. Trata-se de um programa assistencial estruturado para oferecer apoio clínico especializado, acompanhamento multidisciplinar e cuidados terapêuticos a pessoas com demandas de saúde e transtornos associados ao universo de jogos e apostas eletrônicas. Dada a natureza da iniciativa, as informações que circulam em seu ecossistema guardam particular sensibilidade jurídica e humana.
No inventário divulgado pelos cibercriminosos, o Projeto APOST aparece com um volume expressivo de anotações médicas e registros descritivos de atendimentos. As tabelas denominadas apost_soap_nlp_structured e apost_tele_soap_v1, que concentram notas clínicas e registros longitudinais sob a metodologia SOAP com processamento de linguagem natural, somam 80.864 linhas. Além dos prontuários e notas de acompanhamento, o arquivo divulgado aponta a existência da tabela apost_codigos_triagem, reservada aos códigos e classificações de triagem diagnóstica e recepção inicial dos pacientes, com 72.576 linhas. A soma dos dados potencialmente afetados no âmbito do Projeto APOST alcança 153.440 linhas.
Telenordeste e a cooperação com o Ministério da Saúde
As listas fornecidas pelo grupo invasor também evidenciam referências diretas ao projeto Telenordeste. Essa iniciativa de amplo alcance constitui um programa estratégico de telessaúde conduzido pelo Ministério da Saúde, executado em parceria com hospitais considerados centros de excelência no país, grupo do qual o Hospital Sírio-Libanês faz parte ativa com foco na qualificação da atenção básica e no apoio remoto a unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) localizadas na região Nordeste.
As tabelas associadas ao Telenordeste englobam dados estruturados das consultas à distância realizadas entre equipes locais e especialistas médicos. O conjunto composto pelas tabelas telenordeste_teleinterconsultas e telenordeste_teleinterconsultas_atendimentos_soap reúne 194.306 linhas com detalhamentos de atendimentos e teleinterconsultas especializadas. Complementando esse montante, a tabela denominada telenordeste_protocolos, voltada ao armazenamento de fluxos operacionais, diretrizes clínicas e protocolos de conduta assistencial, apresenta 53.893 linhas. Ao todo, os registros ligados ao Telenordeste contabilizam 248.199 linhas na documentação compartilhada pelo grupo Seven Deadly Sins (7DS).
Acompanhamento intensivo remoto no Tele-UTI
O monitoramento intensivo de pacientes em estado crítico também consta na relação de ambientes supostamente acessados. O projeto Tele-UTI foi estruturado pelo complexo hospitalar como uma solução tecnológica avançada para o acompanhamento contínuo e remoto de leitos de terapia intensiva instalados em diferentes regiões do país, permitindo que especialistas de centros de referência apoiem a tomada de decisão em unidades de saúde públicas.
Na documentação atribuída aos criminosos, encontram-se tabelas como teleuti_televisitas, que abriga os registros históricos das televisitas e rondas clínicas executadas à distância, registrando 49.477 linhas. Por sua vez, a tabela teleuti_televisitas_metas, voltada para a parametrização de objetivos clínicos, indicadores de evolução fisiológica e planos terapêuticos definidos para os pacientes internados, reúne 224.944 linhas. O volume cumulativo de registros associados ao projeto Tele-UTI totaliza 274.421 linhas.
Base de internações do Sistema Único de Saúde
O inventário extraído pelos invasores traz ainda uma tabela com volume expressivo de registros de internação em âmbito público, identificada sob a nomenclatura datasus_aih_aprovadas_full. Esse arquivo específico contém dados de natureza administrativa e hospitalar sobre internações aprovadas via Autorização de Internação Hospitalar (AIH), mecanismo que gerencia os fluxos de admissão de pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS).
Essa base abrange aproximadamente 1,84 milhão de linhas, com o total estrito listado de aproximadamente 1.838.735 linhas. Conforme ressaltado nas avaliações preliminares do material técnico divulgado, a exata proveniência dessa massa de dados, a extensão de seu conteúdo e os motivos pelos quais ela se encontrava armazenada no servidor relacionado aos relatórios do Hospital Sírio-Libanês são aspectos que ainda carecem de esclarecimento e confirmação formal pelas partes envolvidas.
Diferenciação entre sistemas internos e bases hospitalares
Em todas as suas manifestações sobre o caso, o Hospital Sírio-Libanês tem reforçado a segregação técnica existente entre os diferentes níveis de sua arquitetura de tecnologia da informação. A instituição fez questão








