Quase 20 anos depois de seu primeiro lançamento, Gears of War continua sendo uma das franquias mais importantes da história do Xbox, mas ainda havia um momento fundamental de sua cronologia que nunca virou jogo. Gears of War E-Day chega em 6 de outubro e finalmente coloca o Dia da Emergência no centro da experiência, mostrando como a Horda Locust surgiu das profundezas de Sera para iniciar uma das guerras mais importantes daquele universo.
E o lançamento não se trata apenas de voltar no tempo, mas também de revisitar as raízes de uma franquia que ajudou a popularizar o combate baseado em cobertura há cerca de duas décadas. Desenvolvido pela The Coalition, E-Day chega ao PC e Xbox com a missão de modernizar a fórmula da série sem abandonar aquilo que fez tantos jogadores se apaixonarem por Gears of War.
E a responsabilidade é tão grande quanto as botas de Marcus Fenix, já que o título será o primeiro de uma nova fase de exclusivos do Xbox, que recentemente passou por demissões e reestruturações. Com isso, fica uma questão no ar: será que Gears of War E-Day tem força para segurar o peso de uma armadura com tanta história?
Eu sou Mateus Mognon, editor do site do VOXL, e te conto agora como foi a minha experiência com esse aguardado game do Xbox. Mas fica aqui um adendo: a review foi realizada com uma chave para Xbox Series X com praticamente toda a campanha sendo jogada no multiplayer local e em tela dividida – já que eu tenho uma esposa que é gamer e preciso aproveitar esse privilégio.

Além disso, título é indicado pra maiores de 18 anos e está com o conteúdo adulto habilitado. Ou seja, se você ver a review em vídeo, é melhor se preparar para capturas em split screen e a alta quantidade de sangue na tela.
História de Gears E-Day retorna ao passado
Enquanto os jogos mais recentes da franquia avançaram na linha do tempo, Gears of War E-Day volta 14 anos antes dos acontecimentos do primeiro game com um objetivo: acompanhar um dos momentos mais importantes da história do planeta Sera. A campanha acompanha o Dia da Emergência, quando a Horda Locust surge pela primeira vez das profundezas e transforma uma crise militar em uma luta desesperada pela sobrevivência. E nós vemos isso em primeira mão, ao lado de quatro soldados vivenciando tudo em tempo real.

A história é contada de maneira cronológica e tem uma estrutura que mistura o clima da série The Pitt com os primórdios de Resident Evil. O jogo mostra o início do ataque de maneira crua e cruel, com os protagonistas tentando entender o tamanho da ameaça que surgiu diante deles.
Marcus Fenix está novamente no centro da ação, mas E-Day também coloca outros personagens importantes ao seu lado para representar diferentes perspectivas sobre o início da guerra. O squad é fechado pelo conhecido brutamontes Dominic Santiago, que está preocupado com a sua família, o inexperiente Lucas Reyes e Mags Carter, que saiu da aposentadoria por causa da crise trazida no Dia E.
Essa diversidade ajuda a campanha a não transformar os protagonistas em simples máquinas de guerra que passam de uma batalha para outra. Eles são soldados que precisam cumprir ordens, mas também são pessoas tentando entender uma situação completamente nova, e esse olhar acaba funcionando muito bem para quem está descobrindo aquele universo junto com eles.
Com isso, E-Day também acerta ao funcionar como porta de entrada para quem nunca teve contato com a franquia. Como a história acontece antes do primeiro Gears of War, o jogador não precisa carregar duas décadas de conhecimento para entender os personagens, a guerra e o surgimento da Horda Locust.
Ao mesmo tempo, quem acompanha a série há anos encontra uma campanha construída claramente como homenagem aos primeiros jogos. Existem momentos cinematográficos, personagens conhecidos e situações que ganham um peso adicional justamente por sabermos onde essa história vai chegar.
Além de trazer um tom de homenagem, Gears E-Day também funciona como porta de entrada para quem nunca teve contato com a franquia.
Além da história principal, as missões secundárias também ajudam a expandir essa sensação de acompanhar uma cidade entrando em colapso. Disponíveis principalmente nas áreas mais abertas, elas apresentam pequenas histórias de soldados e sobreviventes, são totalmente dubladas e mostram diferentes reações das pessoas diante da chegada dos Locust.
No geral, eu não acho que Gears E-Day seja uma obra capaz de mudar a vida de alguém ou reinventar a maneira como histórias de guerra são contadas nos games. No entanto, isso está longe de ser ruim: minha impressão é que a Coalition encontrou um equilíbrio interessante entre homenagear a trilogia original e criar um novo ponto de partida para quem sempre teve curiosidade sobre Gears of War. E tudo isso ocorre de uma maneira bem divertida e engajante.
O auge da fórmula de Gears
Quando o assunto é gameplay, Gears of War E-Day aceita de vez a natureza da franquia e leva a fórmula ao seu melhor momento. O jogo continua baseado em atirar, procurar cobertura, avançar alguns metros e repetir o processo. No entanto, o jogo consegue trazer frescor aplicando uma jogabilidade modernizada e variada.
A sensação de controlar Marcus e companhia é familiar desde os primeiros minutos, principalmente para quem já conhece a franquia. A diferença é que a movimentação está mais moderna, com novas possibilidades de travessia e uma sensação maior de fluidez.

O jogo também conta com uma campanha cinematográfica que consegue variar bastante as situações de combate. Em determinados momentos você está atravessando áreas urbanas, enquanto em outros precisa lidar com florestas, ambientes fechados, veículos em movimento e espaços muito mais abertos.
As áreas abertas, inclusive, são uma das novidades que mais me agradaram em E-Day. Elas permitem revisitar locais, encontrar colecionáveis e descobrir missões secundárias, mas também mudam a maneira como você pensa cada combate.

No Ato 2, por exemplo, deixei passar algumas atividades e colecionáveis durante minha primeira passagem pelo cenário. Quando voltei ao mesmo local ao revisitar a fase com um amigo, comecei a explorar outras regiões e encontrei conteúdos que simplesmente não tinha percebido anteriormente.
Essa estrutura funciona especialmente bem em uma franquia que sempre foi muito linear. E-Day não transforma Gears em um mundo aberto, mas oferece pequenas doses de liberdade que tornam a exploração mais interessante sem fazer o jogador esquecer que está diante de uma campanha focada em ação.
A variedade de inimigos e os chefes também merecem atenção. Ao longo da história, novos tipos de Locust e criaturas aparecem para mudar a maneira como você precisa abordar os confrontos, evitando que a fórmula de cobertura e tiro fique cansativa.

O design dos cenários também complementa essa variedade. Às vezes você enfrenta inimigos conhecidos, mas o ambiente transforma completamente o combate e exige uma abordagem diferente.
As batalhas contra os chefes também são bem equilibradas, pelo menos com a dificuldade normal, utilizada por aqui. Ocasionalmente os seus colegas de esquadrão controlados pela máquina podem fazer burrices, mas achei a experiência como um todo bem equilibrada nos combates, que garantem desafio sem cair na frustração.
Progressão e exploração
Existe ainda uma camada adicional de progressão envolvendo caixas de suprimentos e modificadores que podem alterar seu equipamento durante a campanha. Ao explorar os cenários e completar atividades secundárias, você encontra recursos que ajudam a personalizar sua forma de jogar e dão mais motivos para sair do caminho principal.
Não é um sistema que transforma E-Day em um RPG ou Call of Duty. Ele funciona mais como uma maneira de recompensar quem explora e acrescenta uma pequena camada de personalização sem tirar o foco do combate.

Falando em exploração, também existe um auxílio bastante direto para quem pretende encontrar colecionáveis e caixas espalhados pelo cenário. Em áreas abertas, o mapa permite marcar a localização exata de itens, enquanto sinais sonoros ajudam a indicar que existe alguma coisa próxima.
Confesso que, jogando na televisão e em tela dividida, praticamente não percebi esse recurso no começo. Depois que descobri a existência do aviso sonoro, porém, comecei a prestar atenção nele e cada área passou a parecer um pequeno campo de caça por colecionáveis.
Eu até tentei desativar o som da notificação e não consegui durante o período de testes. Para quem gosta de descobrir tudo sozinho, isso pode parecer uma interferência desnecessária, embora seja importante lembrar que ninguém é obrigado a seguir as indicações. Como diz o perfil de DOOM: você controla os botões que pressiona.
E essa é uma característica que considero interessante em E-Day: o jogo não tem medo de assumir que é um videogame e abraça as raízes de sua franquias. Encontrar colecionáveis, melhorar equipamentos e enfrentar monstros gigantes usando uma armadura com duas vezes o seu peso fazem parte da identidade de Gears, e a Coalition não parece interessada em esconder isso.
Em um mercado no qual muitos jogos tentam transformar cada mecânica em uma experiência realista ou abrem mão de identidade tentando agradar um grupo maior de jogadores, existe algo bom em ver uma franquia clássica continuar abraçando suas raízes. E quando essa fórmula ainda funciona tão bem em cooperação local, fica difícil reclamar da falta de uma revolução.
Jogar com amigos continua sendo especial
Falando em multiplayer local, minha experiência com E-Day foi praticamente toda construída ao lado de outra pessoa, o que deixou a jornada bem divertida. A campanha foi projetada para ser jogada em cooperação com até quatro jogadores online, enquanto o Xbox Series X e Series S também permitem jogar em tela dividida com duas pessoas no mesmo console – desde que você tenha duas contas Microsoft conectadas e esteja online.
Além disso, existe crossplay entre Xbox e PC, incluindo a versão disponível na Steam. Mesmo com as limitações da build que recebi para testes, consegui formar um grupo com duas pessoas no split-screen do Xbox e mais um jogador conectado pelo PC sem enfrentar problemas relevantes de conexão.

Existe, porém, um detalhe importante para quem pretende começar a campanha em cooperação. O progresso fica vinculado ao arquivo salvo do anfitrião, então armas, colecionáveis e outros avanços obtidos pelo seu personagem ficam registrados naquele save.
Na prática, isso significa que vale combinar com seus amigos quem será o responsável por hospedar a campanha. Se a intenção for realmente terminar E-Day em cooperação, manter o mesmo esquadrão durante a jornada evita uma boa dose de confusão.
Na parte técnica, o split-screen no Xbox Series X também merece elogios. Existe uma redução perceptível na qualidade visual para manter a experiência próxima dos 60 quadros por segundo, mas considero o sacrifício totalmente justificável quando você tem alguém sentado ao seu lado para dividir a campanha.
Esse detalhe também tem um peso particularmente grande para mim, e imagino que também para muitos outros brasileiros. Eu comecei a jogar Gears of War há cerca de 15 anos, em uma locadora de games que nem existe mais, quando costumava matar algumas horas jogando multiplayer em tela dividida com meus amigos.
Em um mercado com cada vez mais limitações, ver um blockbuster moderno mantendo esse recurso é louvável. Afinal, esse é um claro sinal que a Coalition entende que parte da identidade de Gears está justamente em reunir pessoas para jogar em grupo.
E o restante do multiplayer?
Além da campanha, Gears of War E-Day também chega com uma estrutura multiplayer mais ampla, incluindo o retorno do modo Horda que aproveita as áreas mais abertas do mala de Kalona e um sistema de classes. O Versus também retorna com partidas 4v4, trazendo o combate multijogador tradicional da franquia.
Como a build disponibilizada para a análise não permitiu testar esses modos, não podemos julgar o conteúdo pré-lançamento, mas você pode conferir aqui no site do VOXL as minhas impressões com o modo Horda durante o beta. No entanto, na parte da campanha principal, o jogo já entrega uma experiência que considero bem satisfatória para os padrões da franquia quando o assunto é multiplayer.
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Unreal Engine 5 bonita, mas ainda com arestas
Enquanto enfrentar hordas de Locust foi divertido durante praticamente toda a campanha, o principal ponto negativo da minha experiência com Gears of War E-Day está na parte técnica. O jogo é visualmente impressionante e mostra bem o potencial da Unreal Engine 5, mas também apresenta algumas inconsistências que ficam difíceis de ignorar.
Durante minha jornada no Xbox Series X, jogando principalmente em tela dividida, o jogo fechou completamente algumas vezes depois de determinadas cutscenes. Em outro caso específico, um problema impediu o avanço da campanha porque os inimigos necessários para continuar a missão simplesmente não apareceram para trabalhar.

Felizmente, nenhum desses problemas fez com que eu perdesse meu progresso. Ainda assim, crashes e bloqueios de progressão são justamente o tipo de problema que pode quebrar completamente a imersão em uma campanha tão cinematográfica.
Também encontrei inconsistências na sincronia labial e em alguns elementos visuais durante cenas da história. Em determinados momentos, a voz parecia atrasada em relação aos movimentos dos personagens, enquanto cabelos, barbas e olhos apresentavam artefatos que destoavam bastante do restante dos gráficos.
A vegetação foi outro ponto em que encontrei problemas bem perceptíveis. Em algumas cenas, principalmente durante o capítulo 3, plantas apresentavam uma espécie de trepidação enquanto eu caminhava pelo cenário.
O problema ficava ainda mais curioso porque acontecia até mesmo em ambientes fechados, com plantas posicionadas dentro de vasos. Quando testei a mesma situação no modo single-player, porém, o bug não apareceu da mesma maneira.

No PC, também tive a oportunidade de fazer um teste rápido em single-player usando uma RTX 5080. Com tudo no ultra e resolução Quad HD, o jogo conseguiu manter 60 quadros por segundo na maior parte do tempo, embora algumas cenas especialmente carregadas de efeitos apresentassem inconsistências.
É importante destacar que E-Day oferece uma série de recursos para aproveitar hardware mais potente, incluindo suporte a ultrawide, taxa de quadros desbloqueada, HDR e tecnologias de upscaling e geração de quadros. A experiência no PC também conta com diferentes opções gráficas e um modo de teste de desempenho, permitindo ajustar o jogo de acordo com a configuração utilizada.
No Xbox Series X, porém, minha experiência mostrou que ainda existe espaço para otimização. A base técnica é sólida e o visual impressiona, mas alguns problemas específicos precisam ser corrigidos para que a apresentação esteja à altura do restante do pacote.
Nenhum desses problemas foi suficiente para arruinar minha campanha e são totalmente passíveis de correção, mas eles também não podem ser ignorados na análise de um game deste calibre. A expectativa é que atualizações futuras resolvam essas arestas, especialmente porque boa parte delas parece estar concentrada em situações específicas de renderização e no funcionamento do split-screen.
Meu chute é que a Coalition teve que apressar o jogo pra correr de um certo lançamento que tá chegando em novembro e é muito aguardado, o Barbie Rewind da Mattel, obviamente. Agora é torcer pro estúdio começar a trabalhar e consertar essas pontas soltas.
Vale a pena?
Gears of War E-Day acerta em cheio ao fazer o básico: aceitar que é um jogo de Gears of War e elevar os pontos positivos envolvidos nisso. O game não revoluciona o gênero, mas entrega uma experiência de gameplay divertida, com uma narrativa cinematográfica e suporte para multiplayer local em pleno 2026.
Para quem cresceu jogando Gears, a sensação é quase a de reencontrar um velho amigo, só que com uma roupagem moderna e muito mais bonita. A Coalition não tenta reinventar completamente a fórmula, mas adiciona áreas mais abertas, novas possibilidades de exploração, movimentação aprimorada e sistemas de progressão que ajudam a campanha a não parecer simplesmente uma repetição dos jogos anteriores.
Também gostei bastante da forma como a campanha funciona tanto como homenagem quanto como porta de entrada para a franquia. Você não precisa conhecer toda a história de Marcus Fenix e da CGO para entender o que está acontecendo, enquanto os fãs de longa data encontram personagens conhecidos, referências e situações que ajudam a conectar E-Day diretamente com o início da série.
O multiplayer local, por sua vez, é provavelmente o aspecto que mais conversa com a minha própria relação com Gears. Em uma época na qual cada vez mais estúdios evitam o split screen, poder colocar duas pessoas no mesmo sofá, dividir a tela e enfrentar a Horda Locust continua sendo uma experiência simples e extremamente divertida.
No fim, os problemas técnicos são o principal asterisco da experiência. Os crashes, travamentos de progresso e inconsistências visuais que encontrei não chegam a destruir a campanha, mas são problemas que chamam atenção justamente porque E-Day é um dos grandes lançamentos da Xbox e foi construído do zero na Unreal Engine 5.
Ainda assim, minha experiência geral foi bastante positiva e o jogo merece uma recomendação. Para quem nunca curtiu Gears of War, o novo jogo da franquia certamente não deve fazer você mudar de opinião. Por outro lado, se você já é fã da franquia ou sempre teve curiosidade em vestir uma armadura da CGO, enfrentar a Horda Locust pela primeira vez em Gears of War E-Day pode ser muito divertido.
Nota do Voxel: 90/100
Pontos positivos (Prós):
- Campanha cinematográfica e com bom ritmo
- Excelente variedade de inimigos, ambientes e situações de combate
- História funciona como ponto de entrada para novos jogadores
- Áreas abertas ampliam a exploração sem descaracterizar Gears
- Multiplayer local muito bem implementado
- Visual de qualidade
- Boa evolução da fórmula clássica da franquia
Pontos negativos (Contras):
- Problemas técnicos e crashes durante a campanha
- Algumas inconsistências visuais e de sincronia labial
- Bugs mais perceptíveis durante o split-screen
Gears of War E-Day estreia em 6 de outubro no PC e Xbox Series S/X, com acesso antecipado iniciando nesta quinta-feira, 1°. O título também estará disponível no lançamento no Xbox Game Pass Ultimate. Uma cópia do game foi cedida pela Xbox Brasil para a realização da review.
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