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Cientistas transformam incertezas do doutorado em projeto digital

Nunca Vi 1 Cientista: do doutorado ao combate às fake news
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O encerramento de um ciclo de pós-graduação costuma colocar pesquisadores diante de encruzilhadas profissionais profundas no Brasil, cenário que motivou o surgimento de uma das iniciativas contemporâneas mais marcantes de divulgação científica nas plataformas digitais. No ano de 2018, as pesquisadoras Laura Marise e Ana Bonassa vivenciavam a iminência da conclusão de seus respectivos cursos de doutorado, dividindo aflições comuns sobre o futuro em um contexto socioeconômico em que a atividade científica nacional enfrenta barreiras históricas de reconhecimento formal. A união de trajetórias distintas que convergiram em um evento no Rio de Janeiro resultou na criação da plataforma Nunca vi 1 Cientista, empreendimento comunicacional focado no esclarecimento de conceitos complexos e no combate direto à propagação de conteúdos enganosos na internet.

O dilema da pós-graduação e a busca por novos horizontes

A fase final de elaboração e defesa de uma tese acadêmica frequentemente impõe ao pós-graduando reflexões severas a respeito dos rumos profissionais a serem adotados. Esse período de transição é marcado pela indagação recorrente descrita pelas pesquisadoras: “E agora, o que vou fazer daqui para frente?”. A dinâmica observada no ambiente acadêmico brasileiro apresenta um contraste marcante, no qual o pesquisador é visto socialmente como peça fundamental para o avanço tecnológico e o futuro da nação durante o período de estudos, mas se depara com a perspectiva imediata da desocupação profissional logo após a homologação de sua tese.

Essa realidade decorre, em grande medida, da estrutura institucional do país, na qual a dedicação exclusiva voltada à investigação científica avançada não é enquadrada formalmente nas leis trabalhistas como um emprego, sendo classificada estritamente sob o rótulo de estudo financiado por bolsas de pesquisa. Tal modelo gera insegurança material e psicológica no momento em que os vínculos acadêmicos formais se encerram. Diante dessa barreira, o profissional é conduzido a questionamentos internos sobre o verdadeiro sentido de continuar inserido na carreira tradicional, sintetizados na dúvida existencial: “será que eu quero isso mesmo?”.

Esse turbilhão reflexivo abre espaço para cogitações diversas sobre mudanças radicais de rota. Entre hipóteses que transitam desde manifestações artísticas até o retorno aos bancos universitários para uma formação inteiramente nova, a busca por experiências alternativas torna-se uma constante. Para Laura Marise e Ana Bonassa, o impasse entre persistir no ensino e na pesquisa formal ou redirecionar as competências adquiridas culminou no interesse progressivo pelas práticas da comunicação social voltada ao público leigo, mesmo antes de as duas se conhecerem pessoalmente.

Caminhos paralelos rumo à comunicação pública da ciência

Mesmo distantes geograficamente e sem contato prévio inicial, ambas já experimentavam os primeiros passos na divulgação científica enquanto cumpriam suas obrigações acadêmicas na pós-graduação. Cada uma atuava em um formato específico, aproveitando as ferramentas disponíveis para aproximar o conhecimento técnico da realidade das pessoas comuns.

A atuação de Laura Marise estava concentrada no ambiente presencial e físico. Por meio da prestação de serviços de atenção farmacêutica, ela lidava diretamente com o público em atendimentos individualizados, traduzindo conceitos farmacológicos, posologias e mecanismos biológicos para uma linguagem cotidiana e acessível aos usuários de medicamentos. Tratava-se de um trabalho analógico, ancorado no diálogo interpessoal e nas demandas imediatas de saúde da comunidade.

Por outro lado, Ana Bonassa havia optado pelo ecossistema virtual. Antecipando a relevância da produção audiovisual na internet, ela gravava e publicava vídeos nas redes sociais com a finalidade de desmistificar a rotina experimental dos laboratórios de pesquisa. Seu trabalho mostrava a complexidade dos protocolos científicos, o manuseio de equipamentos, o rigor das análises e o cotidiano de quem atua no desenvolvimento do conhecimento especializado, preenchendo uma lacuna de representatividade científica na rede.

O encontro no Rio de Janeiro e o aprendizado transformador

A convergência definitiva dessas duas iniciativas isoladas ocorreu a partir de uma competição de comunicação científica realizada na cidade do Rio de Janeiro. O evento, que previa alguns dias de apresentações avaliativas, oficinas de treinamento e a possibilidade de concorrer a uma viagem cultural e acadêmica para a Inglaterra, transformou-se no catalisador de uma parceria profissional duradoura.

O treinamento intensivo foi conduzido por uma especialista britânica da área, identificada como Emily, cuja abordagem prática impactou a percepção das pesquisadoras brasileiras sobre as possibilidades de atuação fora dos muros da universidade. As oficinas não se limitaram à transmissão de técnicas oratórias ou estruturação retórica de apresentações, mas abriram a perspectiva de consolidação de uma carreira autônoma no setor comunicacional, sob a condição de que os profissionais estivessem dispostos à tarefa desafiadora de “abrir o mato” em um terreno ainda pouco explorado no Brasil.

Durante as instruções, a comunicadora britânica utilizava com insistência um lema voltado à superação da hesitação diante do desconhecido: “Say yes, panic later”, expressão cuja tradução prática equivale a (“diga sim, entre em pânico depois”). A diretriz servia de incentivo para que os cientistas assumissem a responsabilidade de interagir com o grande público, superando o medo da exposição e a síndrome de despreparo.

A marca compartilhada e a fundação do Nunca vi 1 Cientista

A assimilação dessa mentalidade produziu uma coincidência emblemática entre as duas participantes. Sem qualquer combinação ou planejamento prévio, tanto Laura Marise quanto Ana Bonassa decidiram registrar na própria pele uma tatuagem com a frase ensinada por Emily. O registro servia como lembrete deliberado de sua mensagem orientadora: “aceite os desafios que aparecerem agora e deixe para se desesperar depois”.

A constatação de valores comuns, aliada ao desejo de romper a distância entre a produção universitária e a sociedade, fez surgir a ideia de somar forças nas mídias sociais. A proposta fundamental consistia em posicionar conteúdos rigorosos no fluxo constante das plataformas digitais, alcançando o usuário enquanto ele realizava a navegação cotidiana e oferecendo conceitos complexos por meio de uma linguagem simples, atraente e compreensível.

A decisão exigiu a aceitação simultânea de múltiplos desafios técnicos e administrativos alheios ao currículo científico tradicional. Foi necessário aprender, na prática, as engrenagens da edição de vídeo, a criação e composição de identidades visuais para postagens, além da estruturação contábil e operacional de um modelo de negócios sustentável. Com essa disposição mútua para expandir as iniciativas individuais que já realizavam, foi criado oficialmente o canal e projeto Nunca vi 1 Cientista.

A escolha do título do projeto carregava um significado conceitual duplo. A expressão central remetia ao fato de que ampla parcela da população brasileira desconhece a rotina de quem atua profissionalmente na ciência, tendo pouca ou nenhuma oportunidade de contato direto com um pesquisador. Simultaneamente, a adoção intencional do numeral 1 na escrita visava assegurar flexibilidade de gênero e interpretação, permitindo que a leitura seja realizada como “um cientista” ou “uma cientista”, adequando-se livremente à preferência do leitor ou espectador.

A virada contra a proliferação da desinformação

O planejamento editorial desenhado no nascimento da plataforma previa um trabalho voltado primordialmente à explanação didática de curiosidades do mundo natural e à elucidação de mecanismos científicos básicos. No entanto, o convívio diário com as redes sociais revelou em poucos meses uma realidade consideravelmente mais agressiva e urgente para o ecossistema de comunicação pública.

Com o passar dos meses, as pesquisadoras constataram que parcela substantiva de seus esforços precisaria ser direcionada para desmentir narrativas incorretas. Embora o mundo contemporâneo seja classificado como a era da informação, as plataformas digitais tornaram-se repositórios dominados por dados distorcidos e alegações fraudulentas. A facilidade para ludibriar o público tornou-se evidente no ambiente conectado, no qual declarações proferidas com tom de segurança e alicerçadas no uso distorcido de argumentos de autoridade conseguem ampla adesão popular, independentemente de seu embasamento fático.

Esse cenário levou à conclusão de que a divulgação científica não poderia limitar-se a ambientes controlados ou fóruns acadêmicos isolados. As evidências verificadas precisavam ocupar ativamente os mesmos espaços em que a desinformação prosperava com maior velocidade. Ficou patente a necessidade de comunicadores decididos a dedicar suas trajetórias ao enfrentamento de alegações enganosas, conscientizando a sociedade civil sobre o funcionamento do método científico, os critérios de validação de dados e a centralidade da ciência para a preservação da integridade coletiva.

Oito anos de atuação e a nova fase no jornalismo

Após oito anos contínuos de dedicação ao projeto, o período de incertezas que antecedeu a conclusão dos doutorados em 2018 consolidou-se como o marco inaugural de uma trajetória profissional consolidada. A missão de combate ao engano digital tornou-se ainda mais premente em decorrência da agilidade com que teses infundadas se disseminam nas redes, sobretudo quando envolvem riscos graves e diretos à saúde humana, replicando-se a taxas alarmantes no ecossistema online.

A demanda ininterrupta por tradução de termos técnicos, mediação de descobertas inéditas e esclarecimento de dúvidas da população mantém a dinâmica da iniciativa em permanente atividade. A compreensão de que o trabalho de esclarecimento científico demanda persistência diária orienta os passos seguintes das pesquisadoras, que passam a ocupar novos canais de diálogo jornalístico como colunistas do TecMundo no portal Estadão. Por meio dessa nova vitrine, Ana Bonassa e Laura Marise ampliam o alcance do Nunca vi 1 Cientista no ecossistema da imprensa tradicional, reforçando o compromisso com a integridade informacional no país.

Equipe Guia no Toque

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