A cada semana, eu busco inspiração para escrever minha coluna e, nesta semana, decidi me valer de uma ideia do Pedro Fernando Nery, também colunista aqui do Estadão, que ele explorou em seu livro “Extremos” – máximos e mínimos de indicadores socioeconômicos pelo Brasil. Eu quis entender o que está por trás da maior e da menor expectativa de vida. Spoiler: tive uma enorme surpresa.
Ao fazer uma primeira busca pelos dados, me deparei com Piauí e Santa Catarina nos extremos inferior e superior (para o ano de 2024). Segundo a Wikipedia, a expectativa de vida ao nascer em Santa Catarina seria de 81,2 anos – equivalente à de países como Chile, Alemanha e Reino Unido. No Piauí, ela supostamente era de 72,4 anos, similar à de países como Egito e Jamaica. Uma significativa diferença de quase 9 anos! Mas, claro, esta é uma fonte secundária – e aí vale que eu sempre repito: jamais aceite a fonte secundária cegamente. Segui o link para a fonte primária: o Sidra/IBGE. E lá constavam estes mesmos números. Portanto, eu poderia me dar por satisfeito e seguir com a minha coluna, certo? Eu queria saber o que causava esta diferença tão grande. Mas havia uma pegadinha, que eu só descobri após calcular por conta própria esta expectativa com base nas tábuas de mortalidade recentes.
Vi que destoava muito do que está no Sidra/IBGE, então havia algum erro. Eis que descobri: lá consta uma projeção feita em 2018, antes do Censo. Em 2024, o IBGE acabaria refazendo as tábuas de mortalidade, que geraram expectativas de vida bem diferentes. Santa Catarina, em vez dos 81,2 anos, teve expectativa recalculada para 78,3 anos. Vale um importante adendo aqui: em tempos normais, a expectativa de vida apenas aumenta, mas jamais podemos esquecer que houve a pandemia mais mortal em um século neste meio-tempo – que gerou uma quebra na tendência e fez a expectativa de vida ao nascer cair. Já no Piauí, a expectativa foi alterada para cima: de 71,4 anos para 77 anos. Ou seja, a diferença, que era enorme na projeção anterior, caiu para pouco mais de 1 ano. E assim ambos estados agora ficam numa faixa de expectativa de vida que abrange países como China, Peru, Argentina e Turquia. Mas, por incrível que pareça, estes novos números não estão no Sidra (que é o repositório padrão do IBGE), mas apenas numa outra seção do site.
Ou seja, a minha ideia inicial de comparar extremos acabou sendo uma comparação de próximos.

E a pergunta óbvia que surge (ao menos foi para mim): como é possível estes números variarem tanto em tão pouco tempo? Tudo indica que é devido à taxa de subregistro. Explico: o registro de óbitos no Piauí (e no Nordeste como um todo) melhorou muito e a cobertura hoje está em 99% (contra apenas 61,4% no ano 2000). O que fora considerado antes é que haveria uma taxa mais alta de óbitos não registrados, o que exigia uma correção deste subregistro. Com a cobertura quase completa, a correção praticamente desaparece, menos mortes foram acrescentadas e, com isto, o resultado do Piauí subiu.
Mas isto significa que agora todos os estados estão muito próximos? Nem tanto. O campeão é o Distrito Federal, com 79,8 anos de expectativa de vida ao nascer (para 2024). Já no Amapá, Roraima e Alagoas este indicador fica entre 74,3 e 74,4 anos. Isto é menos que os quase 9 anos de diferença que eu vira anteriormente, mas ainda assim: mais de 5 anos é uma diferença significativa. Ela diminui muito ao checar a sobrevida aos 65 anos: nestes estados, é de 18 anos (anos esperados de vida a partir daquele momento) – contra 20 anos no Distrito Federal. Neste ponto vê-se que boa parte do que puxa a expectativa de vida ao nascer para baixo naqueles estados são mortes precoces. Mas isto é algo que analisarei numa coluna à parte, focada neste ponto apenas.
No fim das contas, esta coluna de hoje acabou captando um exemplo importante (e inesperado) do quanto um indicador pode variar em função de projeções – e do quão facilmente somos enganados por números desatualizados que as ferramentas de busca ou inteligência artificial nos entregam. Eu fiz o teste: muitas vezes (não sempre), as ferramentas de inteligência artificial mostraram a expectativa de vida antiga, que foi invalidada pela nova calculada após o Censo.
E muito me incomoda o fato de o IBGE manter a projeção desatualizada no Sidra, mas não as expectativas de vida novas calculadas em 2024 – que estão apenas num outro local do site (para download via ftp). Aliás, isto tem sido uma constante com dados públicos: a dispersão de versões de bancos de dados por diversos locais, que dificulta demais o trabalho de quem quer analisá-los. Não seria nada custoso organizar e consolidar isto, basta força de vontade. Ajuda a gente, IBGE!








