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OpiniãoVamos sentir saudades de clicar? Como os agentes de IA podem mudar nossa relação com as telas

OpiniãoVamos sentir saudades de clicar? Como os agentes de IA podem mudar nossa relação com as telas
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Quando pedimos para uma inteligência artificial (IA) encontrar a “melhor opção”, quem decide o que “melhor” significa? Já nos acostumamos com os algoritmos moldando nossos feeds nas redes sociais, mas agora a IA deixou de ser apenas uma lista de links no Google para se tornar um agente ativo.

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Imagine que você queira comprar um eletrodoméstico novo: você define o que precisa, estipula o orçamento e deixa um agente de IA pesquisar, comparar e preparar o carrinho. Em vez de percorrer diversos sites, assistir vídeos de review e precisar montar uma tabela comparativa, você recebe uma recomendação, ou até mesmo a tarefa praticamente concluída, aguardando apenas a sua confirmação para finalizar a compra.

É uma promessa bastante sedutora para quem já perdeu uma tarde tentando resolver algo que gostaria de levar apenas alguns minutos. Mas o que acontece quando deixamos de percorrer os caminhos da internet por conta própria? Será que a possível saudade de clicar é, na verdade, a saudade de escolher a nossa própria rota?

Durante décadas, aprendemos a traduzir nossas intenções em cliques: abrir uma página, navegar em um menu, aplicar um filtro, preencher um formulário. Aprendemos a operar essas interfaces digitais com o ponteiro do mouse ou com a ponta dos nossos dedos. Com os agentes de IA, parte desse trabalho pode ser delegada: descrevemos o objetivo, e o sistema que se encarrega de navegar e executar as etapas.

Alguns agentes operam as mesmas interfaces que nós, clicando e digitando enquanto outros se conectam diretamente às funções dos serviços. Por isso, o possível “adeus aos cliques” tem mais a ver com deixarmos de conduzir cada etapa do que com o desaparecimento dos botões. Passamos de consumidores percorrendo prateleiras digitais para decisores aprovando uma seleção pronta. Ganhamos tempo, mas ao custo de não sabermos exatamente o que ficou de fora.

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Falando de dados, segundo a Cloudflare, as requisições diárias de agentes de IA em sua rede cresceram mais de 1.700% no ano anterior a setembro de 2026. Já a Shopify anunciou, em setembro de 2026, ferramentas que permitem aos agentes atuarem ao longo do processo de compra, inclusive no preenchimento do checkout.

Essa alta de agentes navegando pela web deu origem a um novo termo: Agent Experience (AX), descrito como “a melhoria da experiência dos agentes ao encontrar, escolher e operar uma tecnologia”, de acordo com a Microsoft.

Para nós, um botão bem identificado pode resolver um problema. Já para um agente, a usabilidade depende de descrições claras de ação, estruturação de dados e previsibilidade de resultados. As empresas já estão tendo que readaptar suas plataformas para receber esses acessos não humanos.

Nesse cenário, acredito que um verbo que vamos ouvir cada vez mais sobre seja: delegar. Digo isso pois saber o que delegar para a IA torna-se uma das competências mais críticas da atualidade pois é isso que define a diferença, a própria linha tênue entre ganhar produtividade ou perder habilidades cognitivas e clareza estratégica.

Parte dessa habilidade está em construir um bom prompt, ou seja, um pedido que explique à IA o que esperamos dela. Para isso, vale aprender a dar instruções claras, oferecer contexto e definir critérios. Não precisamos saber escrever o prompt perfeito, mas pedir “encontre o melhor hotel” deixa muita coisa em aberto. Informar o orçamento, a localização desejada e a necessidade de cancelamento gratuito ajuda a dar sentido ao que “melhor” significa para aquela viagem.

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Os agentes inteligentes assumem atividades em nome do usuário. (Imagem: Bangon Pitipong/Getty Images) 

Mas mesmo com essas orientações, ainda precisamos entender como o agente chegou à recomendação: quais alternativas consultou? Conseguiu acessar todos os sites relevantes? Como pesou localização, preço e cancelamento? O que acontece se eu mudar de ideia? Como designer, olho para isso e vejo um desafio gigantesco de interação humano-computador: como garantimos que as pessoas entendam o sistema, direcionem seu comportamento e, o mais importante, consigam recuperar o controle quando algo der errado?

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E a complexidade não para na usabilidade, ela esbarra direto na cibersegurança. Para agir por nós, um agente pode precisar acessar páginas, documentos e contas. O problema começa quando ele esbarra em uma página que, em vez de fornecer informações, contém instruções maliciosas disfarçadas, o que é chamado de “prompt injection”. Se o sistema tratar esse texto oculto como uma ordem legítima, pode acabar usando as suas credenciais em benefício de terceiros.

Em 2025, a Brave demonstrou esse problema: pesquisadores esconderam um comando malicioso em um comentário do Reddit. Ao resumir a página, o assistente do navegador obedeceu ao comando invisível, acessou um código de autenticação no e-mail do usuário e o publicou no próprio fórum. Foi um teste controlado, mas um alerta vermelho sobre vulnerabilidade.

 

É por isso que segurança da informação, privacidade e design de interação precisam caminhar juntos nessa transformação. Cabe aos sistemas limitar quais dados um agente pode acessar, quais ações pode executar e quando precisa da nossa autorização. A experiência também deve permitir entender o que está acontecendo, interromper uma ação e assumir a tarefa. Quanto mais etapas delegamos, mais importantes se tornam essas proteções. Para mim, a promessa de “fazer menos cliques” só se sustenta se tivermos a confiança de que mantemos o controle.

Mas há uma diferença entre querer resolver uma tarefa e querer explorar. Recomprar a lista do mercado não necessariamente é uma experiência que queiramos dedicar atenção todas as vezes. Mas descobrir um autor, escolher um presente ou planejar uma viagem são experiências que podem ser muito prazerosas e que podem expandir a nossa mente e o nosso repertório.

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Acredito que o futuro desejável precisa acomodar essas duas realidades. Ou seja, uma boa experiência com agentes deve nos dar a opção de delegar o que desejamos, mas também nos dar a possibilidade de assumir o controle e navegar livremente quando a exploração for o objetivo.

Quero poder delegar uma tarefa e, no meio do caminho, dizer: “daqui eu sigo”. Talvez algumas telas passem a servir mais para comparar opções e rever decisões. Ainda assim, gostaria de continuar podendo abrir uma aba só porque algo despertou minha curiosidade, sem precisar saber de antemão aonde quero chegar.

Acho difícil sentirmos saudade de preencher formulários ou repetir os cliques que hoje nos cansam. Mas podemos sentir falta das oportunidades de descobrir, questionar e mudar de ideia pelo caminho, inclusive de perceber que queríamos algo diferente do que pedimos à IA.

Equipe Guia no Toque

Somos apaixonados por tecnologia e criamos guias simples e praticos para ajudar você no dia a dia digital. Nossos artigos torna a tecnologia mais acessível para todos.

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