O ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República, Romeu Zema (Novo), protagonizou um novo foco de tensão na corrida eleitoral ao disponibilizar oficialmente, na última sexta-feira (25), o jogo eletrônico intitulado Corrida Chega de Intocáveis. Projetada como uma sátira inspirada na consagrada franquia internacional de jogos de corrida Mario Kart, a ferramenta digital insere caricaturas de personagens do cenário político e financeiro do país em circuitos virtuais repletos de armadilhas. No entanto, a estratégia promocional adotada pela equipe de comunicação da campanha ultrapassou o debate partidário tradicional e gerou forte descontentamento no segmento de entretenimento digital. A veiculação de um vídeo publicitário contendo a figura do influenciador de games Davy Jones provocou uma reação imediata do criador de conteúdo, que informou que não autorizou sua vinculação à chapa partidária e confirmou a intenção de mover uma ação judicial contra o postulante ao Planalto.
A repercussão negativa entre o público que acompanha produções voltadas a jogos eletrônicos decorre da forma como a peça audiovisual foi construída para circular nas plataformas sociais. Em vez de se ater a ilustrações genéricas ou personagens puramente fictícios de seu próprio núcleo político, a divulgação eleitoral veiculou uma representação explícita de Davy Jones, figura bastante conhecida das transmissões e debates virtuais sobre jogos. Ao associar a estética do influenciador a declarações ácidas e termos chulos direcionados a autoridades públicas, a propaganda expôs o produtor de conteúdo a um ambiente de disputa partidária direta. Diante do impacto da veiculação, a iniciativa de Zema transformou um movimento de marketing político em um imbróglio jurídico com risco de sanções nos tribunais cíveis e eleitorais.
A aposta na gamificação política e o formato de corrida
O desenvolvimento e o lançamento do projeto Corrida Chega de Intocáveis representam uma tentativa da equipe de Romeu Zema de dialogar com camadas mais jovens do eleitorado a partir da gamificação e da estética da internet. Adaptando a dinâmica típica dos jogos de corrida de kart, onde competidores aceleram por trajetos repletos de obstáculos imprevisíveis e coletam ferramentas para atrapalhar os adversários, a aplicação transforma a disputa institucional brasileira em um circuito interativo. Dentro da dinâmica estabelecida, quem joga assume o volante em pistas temáticas e precisa realizar manobras evasivas para escapar de bloqueios, armadilhas e percalços projetados para desviar os veículos do percurso planejado.
Essa estrutura interativa foi desenhada para materializar, visualmente, o discurso de enfrentamento sustentado pelo candidato do partido Novo ao longo de sua trajetória pública. Em vez de simplesmente listar críticas em horários televisivos ou postagens convencionais de texto, a ferramenta convida o cidadão a participar de uma simulação virtual na qual os entraves enfrentados pelos competidores simbolizam as resistências políticas atribuídas aos seus opositores. O tom do jogo busca atingir um perfil de eleitor habituado ao consumo de conteúdo interativo e dinâmicas lúdicas, recorrendo à paródia como instrumento de mobilização política.
Personagens do cenário nacional no grid de largada
O elenco de concorrentes e obstáculos inseridos no jogo reflete de forma explícita o rol de adversários e alvos preferenciais da retórica da candidatura. No grid de largada e durante as disputas nas pistas, aparecem representações visuais satíricas do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de ministros que integram o Supremo Tribunal Federal (STF). A presença dessas autoridades reforça o tom combativo da peça em relação aos Poderes constituídos em Brasília, colocando membros da Suprema Corte e o chefe do Poder Executivo em um ambiente competitivo caracterizado por disputas informais e elementos cômicos.
Além das figuras centrais da política partidária tradicional e da cúpula do Judiciário, a narrativa digital incluiu o banqueiro Daniel Vorcaro, conectando o enredo às discussões públicas que cercam o sistema financeiro nacional. Paralelamente aos opositores e alvos de críticas, o jogo apresenta os integrantes da própria chapa eleitoral: o próprio Romeu Zema figura como um dos condutores disponíveis para escolha do usuário, acompanhado pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE), formalmente escalado e apresentado como candidato a vice-presidente na composição do partido Novo. A inserção de Girão reforça a visibilidade da chapa pura na plataforma e consolida a mensagem ideológica compartilhada pelos dois nomes na corrida eleitoral.
O conflito com a comunidade gamer e o uso da imagem de Davy Jones
Embora a proposta de criar uma sátira jogável tivesse como meta aproximar a campanha da cultura jovem conectada à internet, a divulgação oficial do projeto gerou um atrito imediato com a comunidade de games. O elemento detonador da crise foi a utilização desautorizada da imagem do influenciador digital Davy Jones no vídeo promocional publicado nos canais de comunicação de Zema. A peça publicitária não se limitou a fazer menções indiretas ao universo dos streamers de videogame: ela construiu uma representação caricata do comunicador sob o formato de um boneco de ventríloquo.
Na animação concebida pela equipe do candidato do Novo, esse fantoche que reproduzia os traços e a identidade visual de Davy Jones atuava como narrador e comentarista sobre o jogo fictício. Contudo, além de não contar com o consentimento do profissional, o roteiro atribuiu ao boneco o uso explícito de palavrões e insultos direcionados a figuras públicas de destaque nacional, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrantes do Supremo Tribunal Federal. A decisão editorial de colocar termos de baixo calão e ofensas políticas na boca de um personagem associado diretamente a um influenciador real provocou forte repúdio nas plataformas virtuais.
A reação do influenciador ocorreu de maneira pública logo após ele tomar ciência da circulação do material promocional nas redes. Por meio de seus canais no Instagram, Davy Jones repudiou enfaticamente o conteúdo e esclareceu aos seus seguidores que jamais autorizou o uso de sua voz, persona ou aparência para a promoção de qualquer candidatura política. Ressaltando a gravidade do episódio e o dano potencial à sua reputação profissional no mercado de criação de conteúdo, o influenciador anunciou medidas jurídicas imediatas para resguardar seus direitos individuais e patrimoniais.
Jones revelou publicamente ter acionado sua equipe jurídica e encaminhado todo o material audiovisual capturado nas redes sociais aos seus advogados para a elaboração de medidas judiciais. O influenciador reiterou sua decisão irrevogável de ingressar com uma ação contra Romeu Zema, fundamentando o processo na exploração não consentida de seus atributos de personalidade para fins de propaganda eleitoral. A instrumentalização de sua imagem em uma peça partidária gerou perplexidade entre profissionais da área de entretenimento digital, que destacaram o descompasso da campanha ao desrespeitar normas básicas de direito de imagem e de propriedade intelectual.
A exclusão da peça publicitária e o silêncio da candidatura
O avanço das críticas e o anúncio de medidas legais por parte do criador de conteúdo provocaram uma reação rápida nos canais da campanha de Zema, embora de maneira velada. Pouco tempo depois da repercussão negativa e do posicionamento contundente manifestado pelo influenciador, a postagem original que exibia o boneco de ventríloquo foi retirada do ar e excluída das redes sociais oficiais do candidato. O recuo operacional buscou estancar o fluxo de comentários negativos e limitar a exposição do vídeo contestado.
Contudo, até a divulgação das informações sobre a controvérsia, Romeu Zema e seus porta-vozes oficiais não haviam emitido qualquer manifestação pública para explicar os critérios de produção da peça, pedir desculpas pela apropriação não autorizada da imagem ou esclarecer se o conteúdo foi idealizado internamente ou terceirizado para agências de publicidade. O silêncio institucional da equipe do candidato contrastou com a velocidade com que o vídeo foi apagado, mantendo em aberto o desfecho formal das interpelações extrajudiciais e judiciais planejadas pelos advogados de Davy Jones.








