A chegada da quarta temporada da antologia criada por Ryan Murphy e Ian Brennan ao streaming reacendeu o debate sobre um dos julgamentos mais rumorosos da história norte-americana. Ao dramatizar a trajetória da mulher acusada pelo violento duplo homicídio de seus familiares em 1892, a produção estrelada por Ella Beatty tomou liberdades narrativas para preencher lacunas históricas deixadas por um mistério que perdura há mais de um século.
A culpa no duplo homicídio e a cena dos crimes
Na vida real, a Justiça nunca determinou com certeza quem assassinou Andrew e Abby Borden a machadadas no dia 4 de agosto de 1892, em Fall River, Massachusetts. Embora Lizzie tenha sido o alvo principal das acusações devido ao clima hostil dentro de casa — motivado pela avareza do patriarca e disputas patrimoniais —, ela acabou formalmente absolvida por insuficiência de provas.
Para criar impacto visual, a adaptação mostra Lizzie agindo diretamente na execução dos familiares e altera a dinâmica dos fatos. No seriado, Abby é perseguida pelos cômodos antes de morrer, algo descartado por registros históricos. A obra também insere a empregada doméstica, Bridget Sullivan, como cúmplice que desfere golpes contra Andrew, versão que não encontra respaldo em nenhum documento pericial ou testemunho da época.
O suposto envolvimento com Bridget Sullivan
Outra grande licença poética do roteiro é o envolvimento romântico entre a protagonista e a funcionária da residência. Teorias posteriores levantaram hipóteses sobre a sexualidade de Lizzie, mas nunca houve qualquer indício documental de um caso amoroso entre ela e Bridget. Registros do processo apontam, inclusive, que a relação entre ambas era estritamente formal, com a criada chegando a relatar em tribunal ter escutado Lizzie rindo no momento das mortes.
A aparição de Aileen Wuornos e a amizade com Nance O’Neil
Uma das escolhas mais audaciosas da série envolve Aileen Wuornos, vivida por Sarah Paulson. A narrativa sugere que a infame serial killer teria se baseado nos atos de Borden para cometer assassinatos no fim da década de 1980. Trata-se de pura ficção: Wuornos agiu motivada por contextos próprios na Flórida e nunca citou a figura histórica do século XIX como referência.
Já a relação com a artista teatral Nance O’Neil realmente existiu, mas com uma linha do tempo diferente da ficção. Enquanto a trama posiciona a atriz prestando apoio a Lizzie ainda durante o julgamento, o primeiro encontro entre as duas ocorreu apenas em 1904, mais de uma década após a absolvição. A intensa proximidade entre elas alimentou rumores na sociedade da época e culminou no afastamento definitivo de Emma, irmã mais velha de Lizzie.
O assassinato de Bertha Manchester
O enredo televisivo também mostra as personagens cometendo o assassinato de Bertha Manchester como uma espécie de teste preparatório antes dos ataques aos Borden. O episódio, contudo, nunca aconteceu dessa forma.
Embora Bertha tenha de fato sido morta com golpes de machado em uma fazenda distante antes do tribunal de Lizzie, as apurações policiais do período solucionaram o delito e responsabilizaram um imigrante português, descartando completamente qualquer vínculo da jovem de Fall River com esse caso.
Ao transformar lacunas do passado em espetáculo dramático, a obra aprofunda mitos que cercam Lizzie Borden, equilibrando dados documentados com soluções criativas para prender a atenção do público de true crime.








